Sérgio Izecksohn
Nas férias, com o verão escaldando o país inteiro, ficar em casa pode não ser uma boa opção. Mas, como fazer para concluir os trabalhos pendentes no estúdio? Desculpas sinceras não interessam aos clientes aflitos para ouvir como ficou sua produção. Dizer o quê? Que o Carnaval está aí mesmo e o resto fica para depois? Só se desse para levar o estúdio para o passeio, alternando lazer e dever. E já existe esta solução. Leve um super-estúdio na sua mochila e obtenha resultados altamente satisfatórios em suas produções. O exemplo a seguir ilustra bem esta opção.

Com um notebook atual e um desses teclados controladores com entrada de áudio que usam conexão USB ou firewire, você só precisa de um bom microfone, um bom fone de ouvido e alguns programas. Dá para gravar áudio em dezenas de pistas, seqüenciar arranjos com samplers, baterias e sintetizadores virtuais, editar, mixar com todos os recursos que conhecemos dos grandes estúdios e ainda masterizar o CD. E sem pagar excesso de bagagem!
O equipamento. São muitas as opções, a começar por uma escolha pessoal, que é a eterna disputa PC x Mac. A facilidade para conseguir os programas e o custo mais baixo são as principais virtudes do PC. No caso do Macintosh, a preferência se deve à maior estabilidade. Mas ambas as plataformas contam com diversos modelos portáteis e bastante adequados às nossas necessidades. Escolha um que tenha pelo menos 512 MB de memória RAM, hard disk de, no mínimo, 40 GB e uma CPU atual. No caso dos PCs, Pentium IV ou Athlon XP acima de 2 GHz. Se preferir um Mac, use G4 ou G5. A conexão com o teclado/interface pode ser USB ou firewire e deverá ser a mesma do computador. Não se esqueça do gravador de CD.

Renato, por exemplo, usa um notebook Toshiba Satellite com processador Pentium IV de 3.06 GHz, HD de 60 gigabytes, 512 mega de memória RAM e gravador de CD e DVD. Pela conexão USB ele liga o teclado Ozone, ao qual se conectam um microfone Shure SM57 e um fone de ouvido Koss Porta Pro. Para não ter que levar uma coleção de guitarras e amplificadores pra todo canto, ele usa uma guitarra Variax e um simulador de amp Pod 2.0, ambos da Line 6. Eles têm uma incrível versatilidade, simulando timbres de muitos modelos famosos de amplificadores e de guitarras de várias marcas.
Rodrigo usa um Macintosh Powerbook onde, além das produções de áudio, edita vídeos.

Para a finalização dos trabalhos, usamos a mesa virtual do próprio software de gravação para a mixagem. Exportado o arquivo com a mixagem estéreo, podemos então masterizar o CD. No PC, um excelente programa de masterização é o CD Architect.

A produção. Muita gente boa tem aderido ao Estúdio Mochila. A galera dos Detonautas produz vinhetas para diversas emissoras que lhes solicitam e também realiza a pré-produção das músicas do próximo CD da banda. Quando eu estava finalizando este artigo, o produtor e baixista Saboya Jr. me telefonou para dizer que ia passar uma temporada tocando num cassino em Montevidéu, mas que estava levando ‘a mochila’ para continuar produzindo CDs de cantores e outros clientes.
Crie o arranjo com os instrumentos virtuais (Reason, GigaStudio, plug-ins VSTi, DXi etc.) controlados pelo teclado usando a sua estação de trabalho favorita. Grave o áudio das vozes e dos outros instrumentos nas pistas da mesma workstation. Converta o áudio dos instrumentos virtuais (“Freeze synth” no Sonar 4, por exemplo), que se tornarão novas pistas de áudio.
Finalização. Abra a mesa de som do mesmo software e dedique um bom tempo à mixagem. O ideal é esperar voltar para casa e mixar com monitores em vez do fone. O mesmo vale para a masterização. Se não houver outro jeito, queime um CD e procure ouvi-lo nos lugares os mais diferentes possíveis (estúdios, sons domésticos, carros, pistas de dança), para se certificar de que está soando bem em todos. Senão, refaça a mixagem ou a masterização quantas vezes for necessário.
Conclusão. Não se trata aqui de substituir uma mesa Solid State Logic de um milhão de dólares e toda a acústica dos estúdios milionários por uma mochila de acampamento. Não queremos dizer que dá no mesmo, porque não dá. Mas, em se tratando da produção de vinhetas, jingles publicitários, música eletrônica e pré-produção em geral, pode realmente não fazer diferença. Dependendo de quem opera e cria, pode ficar até muito melhor. Boa viagem!
Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio
Publicado na Revista Backstage em 2005